Cemitério Americano e Étretat

{15 de abril de 2012}

No nosso terceiro dia na Normandia, saímos logo cedo para visitar o Cemitério Americano, local que ficou faltando no dia anterior. Dessa vez demos sorte e pegamos o local aberto com bem poucos visitantes. – Para quem assistiu ao filme O Resgate do Soldado Ryan, é o mesmo cemitério que aparece no início e no final do filme.

A entrada no local é rigorosa, raio X, soldados americanos controlando os visitantes, enfim… Perguntei a uma das funcionárias sisudas se havia uma máquina de café ali, pois estava frio pra caramba, e ela enfaticamente me lembrou: “é claro que não, isso aqui é um cemitério!”. Antes de visitar o cemitério, propriamente dito, você passa pelo Museu do local, que já te deixa impressionado, pelas instalações, vídeos e efeitos sonoros em homenagem aos soldados mortos nas batalhas. Já é de enxer os olhos de lágrimas (se você tiver um pouco de sensibilidade…).

Após caminhar por um belo jardim, digno de um parque florestal, à beira do mar, você chega na área do cemitério mesmo. Uma gigantesca área verde e plana, com gramado aparado e milhares de cruzes brancas a perder de vista, seguindo uma distância rígida e milimetricamente calculada entre uma e outra, ora são cruzes, ora são Estrelas de Davi, para os judeus.

Acervo do museu Jardim que leva ao Cemitério Americano Visão geral do Cemitério Americano Túmulos de judeus Muro com o nome dos soldados mortos em batalha

O silêncio e a imensidão desse cemitério são impressionantes, um dos locais mais bonitos e tristes que visitamos nessa viagem. Toda as manifestações de alegria e vibração que tivemos nos locais por onde passamos até então, deram vez a um sentimento de respeito e reverência pelas jovens vidas perdidas tão brutalmente por causa da Guerra. Ali a consequência das batalhas saltam aos olhos: a morte. Você sente uma vontade imensa de orar pelas almas dessas pessoas, que deram a vida por causa de uma guerra estúpida.

Morto no dia D

Soldado desconhecido DSC_0343Memorial do Cemitério

A maioria dos túmulos tem a data de falecimento em 6 de junho de 1944. E há cruzes sem nomes, mas com os restos mortais de algum soldado “desconhecido, mas reconhecido por Deus”. Estão enterrados ali 9.387 soldados americanos.

Partindo dali, fomos em direção a Étretat. E viva o GPS, pois passando por Le Havre percebemos o quão essencial ele foi para não se perder. Le Havre fica no caminho entre Paris e Caen, é uma cidade portuária, e por isso, tem centenas de viadutos, auto estradas, pedágios e pontes, se o seu caminho passar por essa cidade, esteja preparado com o GPS.

Étretat é uma cidade litorânea ainda na Alta Normandia. Famosa por suas falésias, e por hospedar durante alguns anos, ninguém menos que Monet. Sabe aquelas fotos que você vê pela internet com um daqueles títulos “Lugares fantásticos para se conhecer”? Então, essa foi a foto que me inspirou a conhecer Étretat:

Stitched Panorama

Quando eu descobri que isso estava em nosso caminho na Normandia, eu fiz questão de colocar no roteiro, por mais complicado ou corrido que pudesse ficar, e quer saber? Valeu totalmente a pena.

Claro que no dia em que visitamos era primavera e não tinha essa neve aí não. Mas independente disso, a paisagem é incrível e inédita para nós, sul brasileiros, além do mais, com sol o local fica ainda mais lindo. A cidadezinha fica numa parte que tem acesso a uma pequena praia de seixos redondos, e em ambos os lados as falésias se extendem por quilômetros. Entretanto, a parte mais bonita da falésia, que forma essa espécie de tromba de elefante até a água, fica do lado esquerdo da praia, mas subir para o lado direito, te privilegia com uma vista ainda mais bonita dessa formação rochosa.

Falésias de Étretatlado esquerdolado direitoPanorâmica da cidade Vista sobre as colinas do lado direito da praiaQue areia branquinha?! o negócio aqui é pedra.

Tem que ter perna e tem que ter fôlego para subir os dois lados na mesma tarde, e mais ainda se atravessar a praia pelas pedrinhas… ainda mais com uma certa pressa que estávamos, mas a vista é compensadora, eu faria tudo de novo. Se o seu estilo de viagem é mais relacionado à natureza, Étretat é um daqueles lugares naturais lindos de se ver e de se perder pelo menos algumas horas. No dia em que fomos, era domingo de sol, e achamos curioso ver tantos jovens deitados nos gramados das colinas, conversando e passeando, como se ali fosse um parque. Outra curiosidade é o campo de golf do lado da falésia principal… privilégio para poucos.

Monet Tentei tirar a foto do mesmo ângulo que a foto que me inspirou.. não deu muito certo. DSC_0492 Outras visões das falésias

Nosso destino saindo dali foi Rouen, onde passamos a noite e muito frio.

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O Dia D – 3/3

{14 de abril de 2012}

E finalmente, chegamos a Point Du Hoc. O local é um penhasco a beira mar, no forma de uma lança, acabou sendo local estratégico de defesa para os alemães, que já haviam ocupado a França, no período da Segunda Guerra Mundial. A esquerda desse local, está a praia de Utah, e a direita, a praia de Omaha Beach. Era uma área extremamente fortificada, com diversas casamatas e locais de armazenamento de artilharia pesada, principalmente canhões.

Vista aérea de Point du Hoc. Pointe du Hoc. Omaha Beach, pocked by D-Day bombardment. On June 6th. 1944, five Normandy beaches were stormed by British, Canadian and American troops to free Europe from the German occupation. Ever since, each year on June 6th, Normandy coast lures veterans and pilgrims. (Ph: Alexandra BOULAT)

No Dia D, o local foi atacado pelas tropas aliadas, que chegaram em 3 frentes: pelo mar, através de disparos de canhões dos navios, pelo ar, através de bombardeiros, e por terra, com soldados escalando as falésias que circundam a área. O resultado disso é uma área semelhante ao solo lunar: repleto de crateras profundas.

Foto tirada da área sendo bombardeada no Dia D.

As crateras e os restos das construções são de deixar qualquer um alucinado. Principalmente para quem curte a história da Segunda Guerra Mundial. Nossa reação foi de euforia a cada cratera encontrada, nem o vento gelado e constante tirou nossa empolgação. É um local onde o Dia D permanece muito vivo e memorável, com certeza vale a pena ser visitado.

Primeiras crateras na entrada do local.

Vista parcial da entrada

Uma das maiores crateras encontradas, logo no começo da visita.Uma das casamatas DSC_0192 Por dentro da casamata. Ruinas Várias crateras Ruínas Um dos locais mais legais. Ali ficava um dos canhões alemães. Essa construção fica na ponta mais extrema, possivelmente usado também por soldados com metralhadoras e coisas do gênero. Praia de Omaha Beach Praia de Utah Beach Ruínas Evandro está ali no meio, dá pra ver?

Atualmente, Point du Hoc pertence ao governo americano. Que o mantém muito bonito e super bem cuidado. Ficamos admirados.

Vista geral da área. A falésia e ponto extremo do Point du HocVista do terreno.

E com essa visita, terminamos o dia D na Normandia. Ficou devendo o Cemitério Americano, que visitamos no dia seguinte, antes de pegar a estrada novamente.

O dia D (parte 2/3)

{14 de abril de 2012}

Continuando nosso Dia D, saímos de Arromanches com destino ao Cemitério Americano. Impossível não falar das estreitas estradinhas asfaltadas da Normandia, que têm uma beleza à parte. Ladeadas de casas e pequenos castelos construídos de pedras e cobertos com telhas de ardósia, e cercadas por imensas plantações de canola, que nesta época estão floridas com um amarelo intenso.

Na época do ano em que fomos (primavera), anoitece às 9h da noite na Europa. E isso confunde um bocado a noção das horas. Eram pontualmente 17 horas quando chegamos nos portões do Cemitério Americano. E esse é exatamente o horário em que ele fecha. Meu charminho brasileiro e carinha de pidona não conquistaram o soldado americano fardado e armado que guardava a entrada do Cemitério. Tudo bem, nem tudo é perfeito, decidimos voltar no dia seguinte, pois não poderíamos deixar de ver o Cemitério uma vez que estávamos tão próximos.

Deixamos o carro no estacionamento, ali mesmo, e fomos até um monumento logo perto que tinha acesso pela estrada, através de uma cerca de arame farpado. Dali, prevíamos, no mínimo, ver um pouco mais da praia. Mas quando chegamos próximo ao monumento, vimos do que se tratava. Era o local onde houve o ataque da Primeira Divisão de Infantaria da força aliada, na praia de Omaha Beach. Um dos primeiros pelotões em terra a atacar as forças alemãs e um dos mais tradicionais pelotões do Exército Americano. Não teve como não lembrar da cena marcante do começo do filme “O Resgate do Soldado Ryan”. Várias casamatas e bunquers estavam escondidos pela gramado que desce até a praia, além dos abrigos de canhões e artilharia anti-aérea. Foi um dos primeiros contatos que tivemos com os esse tipo de ruínas, com marcas de tiros e bombardeio, impossível resistir a entrar numa ou noutra casamata. Andar pelo terreno e encontrar esses bunquers ou construções militares nos fez sentir como arqueólogos descobrindo tesouros históricos. Mesmo sendo mulher, fiquei entusiasmada. Evandro e Caio então…

Aliás, você leitor(a) desse blog, me desculpe a falta de termos apropriados e descrições históricas corretas ou aprofundadas a respeito do assunto. Apesar de me interessar muito pela Segunda Guerra Mundial, meu conhecimento específico sobre artilharia, exércitos e estratégia militar são muito pequenos e se baseiam muito no que eu vi de perto e aprendi nessa viagem (e em filmes do tema), ok? Ficarei agradecida se você tiver alguma contribuição ou correção a fazer. 

Saindo dali, descemos pela estrada até a outra parte da praia de Omaha Beach. Onde eu fazia questão de visitar o monumento de Les Braves, erguido em homenagem aos soldados que lutaram e perderam a vida no dia da invasão. Estava bastante frio na praia, como aliás, em toda essa região litorânea nesse dia.

Por muitos lugares nessa região, você encontra museus a céus abertos com equipamentos de guerra. Você olha para as falésias a beira da praia e encontra casamatas. Há locais com mais pontes militares expostas como se fossem monumentos. E até mercearias ou pequenas vendas, cuja entrada é “enfeitada” com pequenos canhões da II Guerra. Parece que todos os moradores por ali tem um “souvenir” do Dia D em seus quintais.

Dali, nosso destino era Point Du Hoc, e já estava começando a ficar tarde. Resolvemos dar uma parada ligeira para ver um museu na beira da estrada, que valeu a pena. Um dos Museus a céu aberto mais legais por onde passamos, as fotos seguem abaixo. Tratava-se de um pátio onde se encontram diversos canhões, aqueles barcos nos quais desciam os soldados, um bunquer alemão de ferro fundido incrível e até um motor de avião com as hélices retorcidas. Um local imperdível! E o melhor de tudo, gratuíto. Claro que existe uma parte aparentemente paga, coberta, qua parecia até um hangar, mas que já estava fechada.

Point Du Hoc, um dos locais mais legais para visitar nessa região, ficará para o próximo post.

O dia D (parte 1/3)

{14 de abril de 2012}

Nosso Dia D foi em 14 de abril [o real foi em 06 de junho de 1944], foi o dia em que partimos para Caen logo cedo e programamos os passeios e visitas aos principais pontos de chegada dos aliados ao território francês. – O Dia D foi o que deu início ao fim da Segunda Guerra Mundial, por isso ele foi tão importante para a humanidade. Em nenhuma de nossas viagens anteriores, estivemos tão próximos a vestígios da Segunda Guerra Mundial. Um dos nossos maiores motivadores para incluir esse local no roteiro, confesso, foi meu irmão, que estava sedento por conhecer um dos palcos da Guerra em sua primeira visita a Europa. Mas esse acabou sendo um dos dias mais incríveis da nossa viagem desse ano, para todos nós, não só para meu irmão, que logicamente, pirou também com a aventura.

Em nossas pesquisas pré-viagem, descobrimos que a região fica bastante próxima a Paris, coisa de poucas horas de trem, e que esse trajeto pode ser feito até Caen tranquilamente, e é o que geralmente faríamos. Mas como as diversas praias, museus e pontos relacionados ao Dia D ficam muito espalhados pela região, teríamos as opções: A. Pagar por um “D Day Tour” e seguir o roteirinho dos turistas, ou B. Alugar um carro, e fazer nosso próprio roteiro. Por essa razão, optamos acertivamente pela segunda alternativa. Nada mais prático, rápido e cômodo do que isso. (Claro que não foi uma decisão de última hora, já havíamos feito a reserva do carro antes de ir, aqui no Brasil mesmo).

Nossa primeira parada foi no Memórial de Caen (ou Memorial da Segunda Guerra). Um prédio recentemente inaugurado, com uma grande exposição relacionada à Segunda Guerra, desde o seu surgimento até seu fim. Seu acervo contempla aviões, uniformes, suplementos dos soldados, artefatos de guerra, bombas e armamentos diversos, artefatos nazistas, maquetes do plano de invasão dos aliados, vestígios de tiroteios, reconstrução de uma vila francesa após a guerra, vídeos diversos, uma sala acústica muito bacana, discursos nazistas em áudio no decorrer do percurso e o que mais me causou náusea e angústia: a parte dos vestígios e atrocidades contra os judeus. O museu é realmente uma viagem pela II Guerra e vale uma visita antes de ir para as praias. Sua entrada não é lá tão cara não, e ainda há a opção de audioguides.

Segunda parada, Arromanches-Les-Bains. A praia onde foram instalados os portos artificiais (ou “Porto Winston”), para desembarques dos equipamentos e veículos dos aliados após a tomada da região dos nazistas. Os vestígios dos portos estão lá ainda, desde a praia, onde, dependendo da maré, você pode até tocá-los, até onde seus olhos alcançarem no horizonte. É uma visão realmente incrível, uma viagem no tempo. Eles estão lá, há quase 70 anos, desde que mudaram a paisagem da pacata cidadezinha de praia. Há um mirante do lado direito da cidade, onde se pode ver do alto a gigantesca instalação dos portos feita em 1944. Tanques de guerra, pontes militares, e até aquelas balsas onde desembarcavam os soldados (como os que aparecem no início do filme O Resgate do Soldado Ryan) estão espalhados próximo ao Museu do Desembarque, nessa praia e podem ser vistos de perto. O Museu do Desembarque, que fica em Arromanches também tem um acervo interessante, mas estava um pouco mais salgado, e nesse caso, só meu irmão entrou, disse que valeu a pena!

Para não ficar extenso demais, vou dividir esse dia em 3 postagens. Acompanhe o resto da aventura no próximo post.